
Um carro aleatório pára num cruzamento; todos se indignam; começa o buzinaço, alguém percebe ter algo errado e vai em direção ao motorista. Um oftalmologista atende um paciente e no dia seguinte ao acordar mal consegue sair da cama. Um ladrão que acaba de furtar um veículo abandona-o ao avistar a polícia mas não consegue fugir. Pessoas diferentes, em lugares diferentes, um mesmo sintoma: CEGUEIRA.
Talvez não esteja acontecendo exatamente como o grande Saramago imaginou, mas temos presenciado uma “pandemia” generalizada que vem se alastrando com velocidade assustadora. Um tornado comportamental, um tsunami social. Refiro-me àquilo que nos costumamos a chamar de “Rede Social”. A cada dia que passa angariamos mais amigos e nos tornamos mais distantes. Falamos com mais pessoas sem falar com ninguém. Recebemos inúmeras mensagens sem que qualquer delas nos tenha sido endereçada. Expandimos nossa visão para o mundo e a encurtamos para os que nos são próximos. Abrimos nossa vida e fechamos nosso coração.
Não há dúvida de que a tecnologia e todas as suas ferramentas são um grande benefício para a humanidade, contudo, a maneira exagerada como tem sido usada, já hoje tem afetado jovens, adultos e mesmo crianças, resumindo aquilo que nos é mais precioso nessa vida, os relacionamentos, por vezes, à meros 140 caracteres. Seguimos tanta gente, mas no final sequer saímos do lugar.
Como um utilizador frequente dessas tecnologias não posso negar as grandes vantagens de se comunicar, ainda que por uma breve mensagem com pessoas que há poucos anos simplesmente perderíamos para sempre, no entanto a vida não pode ser feita apenas de breves mensagens, existem livros que precisam ser escritos e esses só são possíveis por meio de atenção e dedicação às pessoas por trás dos “profiles”, que por sua vez são meras representações daquilo que um pessoa é ou gostaria de ser, uma verdade meramente relativa.
Essa mudança tem, de forma muitas vezes definitiva, castrado nossos jovens emocionalmente. É como foi cômicamente retratado em um filme que assisti recentemente: um jovem volta à década de 80 e ao se deparar com uma bela moça em uma festa dispara, todas as vezes sem sucesso: “- Qual seu e-mail?”, “Você tem MSN?”, “Posso te mandar um torpedo depois?”… “Já existe o GOOGLE?”.
As habilidades interpessoais, que de acordo com uma pesquisa realizada há alguns anos atrás são apontadas como responsáveis por mais de 80% do sucesso profissional já não são mais desenvolvidas como no passado. O número de pessoas deprimidas tem aumentado na mesma proporção do crescimento dessa realidade virtual.
Felizmente, a cegueira de nossos dias é voluntária e, portanto, controlável, contudo, a unica maneira de contermos o avanço dessa onda é nos elevarmos aos lugares mais altos, nadarmos contra a maré e não desistir. Não precisamos nos abster totalmente, mas não se pode discutir ser responsabilidade da nossa geração encontrar o meio que ajudará aqueles que nos sucederão a DESCONECTAR PARA CONECTAR.
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